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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Criancinhas

Miguel Carvalho

Quinta, 1 Março 2007

Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao
hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo


Criancinhas

A criancinha quer Playstation. A gente dá.

A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.

A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente
elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.

A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos.
Pizzas, umas tantas. Coca-Colas, às litradas. A gente olha para o
lado e ela incha.

A criancinha quer camisola adidas e ténis nike. A gente dá
porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é
perigoso ser diferente.

A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente
senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.

A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz
de conta e o berreiro continua.

Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou
mulher.

Desperta.

É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir
mesada, semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em
saídas, roupa da moda, jantares e bares.

A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por
isso. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida
stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.

A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta
e tal, e torna-se mais exigente com os papás. Agora, já não lhe
basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à
frente na mota, no popó e numas férias à maneira.

A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências,
inicia o processo de independência meramente informal. A rebeldia é
de trazer por casa. Responde torto aos papás, põe a avó em sentido,
suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as
tarefas domésticas são «uma seca».

Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco
minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua
sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica
traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc e tal. Em
casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora. Os papás, arrepiados com a
violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida
entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em
folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas
bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em
paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».

A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos, ainda será
criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda
fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao
menos não anda para aí a fazer porcarias».

Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais,
das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha?
Pois não, bem sei. Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão
ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro
das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos
e debates para nos entretermos.

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